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- Artigo do professor João Torres, do Instituto de Biofísica da UFRJ sobre as chuvas que caíram no Rio.

 

Grande Deslize

Especialista analisa e explica o deslizamento do Morro do Bumba

O dia era 7 de abril. A Região Metropolitana do Rio de Janeiro era surpreendida por uma das maiores chuvas dos últimos anos. Os moradores do Morro do Bumba, em Niterói, não esperavam que a força das águas iria provocar um dos maiores desastres já presenciados pela população fluminense. Porém, a tragédia já era previsível: a comunidade era situada em cima de um antigo lixão, desativado em 1981 e ocupado desde então. O resultado da tragédia pode ser confirmado pelos números. De acordo com a Prefeitura de Niterói, até o dia 14 de abril, 43 pessoas haviam sido resgatadas, 31 mortos haviam sido encontrados e cerca de 30 pessoas ainda se encontravam desaparecidas.

Foto de Felipe Dana/AP

O incidente também acabou por movimentar uma discussão que já existe há algum tempo, mas andava um pouco esquecida. Setores políticos da sociedade e a comunidade científica, principalmente os elementos mais ligados ao controle de barreiras e regiões de risco, como geólogos e geógrafos, sempre divergiram quanto à ocupação de áreas de risco, como o Morro do Bumba. Por se tratar de uma área de interesse político, ocupada por uma população de baixa renda, nunca houve uma iniciativa de remoção dessa comunidade, o que é condenado pelos geólogos que há anos observam e estudam a situação do local. Assim é justificada a enorme quantidade de declarações procurando encontrar culpados após o desastre, enquanto os planejamentos e ações para uma próxima enchente permanecem em segundo plano, bem como uma explicação mais profunda do que aconteceu.

Para André Avelar, geólogo do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a desinformação da população associada à pobreza torna a cidade mais vulnerável. “Mesmo após os deslizamentos, a falta de informação é nítida. Muita gente não sabe o que aconteceu, nem por que aconteceu. Esse é um dos motivos que explica porque áreas de extremo risco, como um lixão, ainda são ocupadas”, afirmou o especialista, que ainda explicou o que ocorreu no morro e porque a área é considerada de extremo risco. “O Morro do Bumba pode ser considerado um caso de exceção entre as demais encostas do município, afinal era um morro cujo vale foi ocupado por um depósito de lixo nos anos 60. Isso aumentou muito a instabilidade do solo do local, que passou a ser fortemente ocupado a partir dos anos 80. Um solo com lixo em sua composição tem uma resistência menor que os outros solos, afinal os materiais que o compõe tem pouco atrito. Quando chove, a massa do depósito aumenta e a pressão sobre essa massa também, tornando bastante provável a ocorrência de um deslizamento”.


Apesar do grande foco da tragédia ser o Morro do Bumba, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro em geral foi afetada pelas chuvas. O geólogo também explicou porque essa região é vulnerável a enchentes e deslizamentos. “O relevo do Rio de Janeiro é montanhoso e possui solos espessos, que são suscetíveis a rupturas, principalmente durante períodos chuvosos. Como as áreas planas são escassas, sua ocupação formal é vinculada à população de alta renda. Já a população pobre acaba indo para as áreas mais íngremes e vulneráveis, praticamente esquecidas pelo poder público, o que acaba por agravar as consequências dos desastres”, analisou Avelar.


Quanto a prognósticos para o futuro, muito esperados por grande parte da população, que espera que os incidentes não se repitam, o geólogo tem a sua sugestão. “É essencial criar espaços residenciais no tecido formal da cidade, em áreas de pouca densidade, como o cais do porto e áreas em torno da Avenida Brasil e da estrada de ferro, afinal apresentam infra-estrutura e relevos estáveis. Somente a partir de iniciativas desse tipo, aliadas a uma política de combate à miséria e à pobreza, esse problema terá uma resolução”, aponta.

Além disso, é importante que essa discussão não seja esquecida, afinal uma análise de eventos semelhantes que ocorreram no passado mostra que alguns meses após as tragédias o debate se perde e nenhuma mudança significativa é alcançada. “Nos anos de 1966, 67, 88 e 96, foram registradas chuvas semelhantes à última no município do Rio de Janeiro, porém nenhum progresso pôde ser percebido no que diz respeito à remoção de populações de áreas de risco. Isso acontece porque alguns meses após os eventos, o poder público se direciona para outras catástrofes, como epidemias e outros problemas ambientais, e acabam não tendo um planejamento contínuo para essas populações”, disse o professor da UFRJ, que ainda completou, “por outro lado, as seguidas mudanças de governo tornam complicada uma continuidade de projeto. Assim, nada é concluído”.


A possibilidade de novas chuvas já assusta as populações das encostas fluminenses, assim como algumas autoridades. No entanto, Avelar adiantou que sempre antes de eventos extremos, há chuvas antecedentes, que tornam os solos mais suscetíveis, mas, por outro lado, podem deixar a população alerta para outros deslizamentos. “Não podemos prever o que irá acontecer nos próximos meses, porém é fundamental que as autoridades parem de tentar achar culpados e partirem para uma ação mais concreta e imediata”, finalizou.

Rafael Pinto Soares – estagiário de jornalismo científico
 

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