Grande Deslize
Especialista analisa e explica o deslizamento do Morro do
Bumba
O dia era 7 de abril. A Região Metropolitana do Rio de
Janeiro era surpreendida por uma das maiores chuvas dos últimos anos. Os
moradores do Morro do Bumba, em Niterói, não esperavam que a força das
águas iria provocar um dos maiores desastres já presenciados pela
população fluminense. Porém, a tragédia já era previsível: a comunidade
era situada em cima de um antigo lixão, desativado em 1981 e ocupado
desde então. O resultado da tragédia pode ser confirmado pelos números.
De acordo com a Prefeitura de Niterói, até o dia 14 de abril, 43 pessoas
haviam sido resgatadas, 31 mortos haviam sido encontrados e cerca de 30
pessoas ainda se encontravam desaparecidas.

O incidente também acabou por movimentar uma discussão
que já existe há algum tempo, mas andava um pouco esquecida. Setores
políticos da sociedade e a comunidade científica, principalmente os
elementos mais ligados ao controle de barreiras e regiões de risco, como
geólogos e geógrafos, sempre divergiram quanto à ocupação de áreas de
risco, como o Morro do Bumba. Por se tratar de uma área de interesse
político, ocupada por uma população de baixa renda, nunca houve uma
iniciativa de remoção dessa comunidade, o que é condenado pelos geólogos
que há anos observam e estudam a situação do local. Assim é justificada
a enorme quantidade de declarações procurando encontrar culpados após o
desastre, enquanto os planejamentos e ações para uma próxima enchente
permanecem em segundo plano, bem como uma explicação mais profunda do
que aconteceu.
Para André Avelar, geólogo do Instituto de Geociências da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a desinformação da população associada à
pobreza torna a cidade mais vulnerável. “Mesmo após os deslizamentos, a falta de
informação é nítida. Muita gente não sabe o que aconteceu, nem por que
aconteceu. Esse é um dos motivos que explica porque áreas de extremo risco, como
um lixão, ainda são ocupadas”, afirmou o especialista, que ainda explicou o que
ocorreu no morro e porque a área é considerada de extremo risco. “O Morro do
Bumba pode ser considerado um caso de exceção entre as demais encostas do
município, afinal era um morro cujo vale foi ocupado por um depósito de lixo nos
anos 60. Isso aumentou muito a instabilidade do solo do local, que passou a ser
fortemente ocupado a partir dos anos 80. Um solo com lixo em sua composição tem
uma resistência menor que os outros solos, afinal os materiais que o compõe tem
pouco atrito. Quando chove, a massa do depósito aumenta e a pressão sobre essa
massa também, tornando bastante provável a ocorrência de um deslizamento”.
Apesar do grande foco da tragédia ser o Morro do Bumba, a Região Metropolitana
do Rio de Janeiro em geral foi afetada pelas chuvas. O geólogo também explicou
porque essa região é vulnerável a enchentes e deslizamentos. “O relevo do Rio de
Janeiro é montanhoso e possui solos espessos, que são suscetíveis a rupturas,
principalmente durante períodos chuvosos. Como as áreas planas são escassas, sua
ocupação formal é vinculada à população de alta renda. Já a população pobre
acaba indo para as áreas mais íngremes e vulneráveis, praticamente esquecidas
pelo poder público, o que acaba por agravar as consequências dos desastres”,
analisou Avelar.
Quanto a prognósticos para o futuro, muito esperados por grande parte da
população, que espera que os incidentes não se repitam, o geólogo tem a sua
sugestão. “É essencial criar espaços residenciais no tecido formal da cidade, em
áreas de pouca densidade, como o cais do porto e áreas em torno da Avenida
Brasil e da estrada de ferro, afinal apresentam infra-estrutura e relevos
estáveis. Somente a partir de iniciativas desse tipo, aliadas a uma política de
combate à miséria e à pobreza, esse problema terá uma resolução”, aponta.
Além disso, é importante que essa discussão não seja esquecida, afinal
uma análise de eventos semelhantes que ocorreram no passado mostra que
alguns meses após as tragédias o debate se perde e nenhuma mudança
significativa é alcançada. “Nos anos de 1966, 67, 88 e 96, foram
registradas chuvas semelhantes à última no município do Rio de Janeiro,
porém nenhum progresso pôde ser percebido no que diz respeito à remoção
de populações de áreas de risco. Isso acontece porque alguns meses após
os eventos, o poder público se direciona para outras catástrofes, como
epidemias e outros problemas ambientais, e acabam não tendo um
planejamento contínuo para essas populações”, disse o professor da UFRJ,
que ainda completou, “por outro lado, as seguidas mudanças de governo
tornam complicada uma continuidade de projeto. Assim, nada é concluído”.
A possibilidade de novas chuvas já assusta as populações das encostas
fluminenses, assim como algumas autoridades. No entanto, Avelar adiantou
que sempre antes de eventos extremos, há chuvas antecedentes, que tornam
os solos mais suscetíveis, mas, por outro lado, podem deixar a população
alerta para outros deslizamentos. “Não podemos prever o que irá
acontecer nos próximos meses, porém é fundamental que as autoridades
parem de tentar achar culpados e partirem para uma ação mais concreta e
imediata”, finalizou.
Rafael Pinto Soares – estagiário de jornalismo científico