| ciência em debate (tema : nanotecnologia)

O revolucionário Mundo da Nanociência
Cientista brasileira fala sobre o primeiro nanomedicamento produzido no Brasil e os avanços da técnica no mundo


Professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Sílvia Guterres é especialista em nanofármacos. A cerca de 15 anos ela trabalha com o uso das possibilidades da nanobiotecnologia na área da saúde. A cientista conta que a técnica aplicada à produção de medicamentos já é uma realidade: "Um pulo tecnológico no qual o Brasil está inserido”, define.
Recentemente a pesquisadora, ao lado da também cientista da UFRGS Adriana Pohlmann, concluíram os estudos do primeiro nanomedicamento brasileiro. A pesquisa e o desenvolvimento do produto foram feitos em parceria com a empresa de produtos farmacêuticos “Incrementha”.
Nanoanestésico para utilização em pequenas cirurgias de pele, o medicamento é transportado em nanocápsulas biodegradáveis, que levam o produto às terminações nervosas da pele, não sendo absorvido pela corrente sanguínea. Esta característica faz com que os efeitos colaterais sejam reduzidos drasticamente, contribuindo com a potencialização do princípio ativo e da duração do efeito anestésico.

ECV: Por que a nanobiotecnologia é considerada uma revolucionária descoberta?
S.G: A partir da nanobiotecnologia pode-se produzir medicamentos mais seguros e eficazes. O grande desafio hoje é encontrar um fármaco que efetivamente trate a doença. Descobrir uma forma de levar este medicamento até o local de ação mantendo sua estabilidade físico-química e imunológica, maximizando sua atuação e minimizando os efeitos colaterais é o objetivo da nanobiotecnologia.

ECV: Como a nanociência ajudaria neste processo?
S.G
: Para que o fármaco chegue à área de ação correta e de forma seletiva, ou seja, poupando os tecidos, é necessário uma estrutura esférica nanométrica. Isto é, produtos que possuem em sua composição estruturas organizadas cuja escala numérica é o nanômetro*. Atualmente, os cientistas trabalham com dois tipos de estruturas: os lipossomas, nanocarreadores fosfolipídicos, e os polímeros biodegradáveis, recente advento da química fina.
“1 nanômetro corresponde a 10-6 milímetros, ou seja: 0,000001 mm. Só para você ter uma idéia, a cabeça de um alfinete tem em média um milímetro. Um nanômetro é um milhão de vezes menor que a cabeça de um alfinete!

ECV: Que vantagens os nanofármacos têm sobre os medicamentos convencionais?
S.G:
O tamanho reduzido das estruturas que envolvem estes fármacos dá a eles a capacidade de atravessar barreiras biológicas. Por exemplo, em casos de infecções bacterianas, dependendo da nanopartícula utilizada, ela pode romper a barreira que envolve as células bacterianas. Algo difícil para os antibióticos.
É claro que a atuação de cada nanomedicamento, ou seja, sua seletividade vai depender da análise e característica de cada tecido do corpo. Mas, no geral, pode-se listar também a diminuição da competitividade com tecidos, o aumento da especificidade da ação, redução de efeitos adversos e aumento da estabilidade química da substância ativa.

ECV: O foco das aplicações da nanobiotecnologia está na engenharia farmacêutica e na medicina. Como estão se desenvolvendo as pesquisas nestas áreas?
S.G:
Em termos de pesquisas científicas o uso da nanobiotecnologia é algo recente. No ano de 2005 foram registrados 2.415 estudos na área de produção de drogas, e o câncer é disparado o setor em que se concentra o maior número dessas pesquisas. Mas, é claro que os cosméticos chegam antes ao mercado devido aos menores riscos. Um nanoproduto é um elemento que traz muitos benefícios para tratamentos estéticos, por exemplo, devido a sua alta capacidade de concentração na pele. Em 2005, a Lancôme Paris lançou o primeiro produto nanocosmético, e na sua onda seguem hoje empresas como a Natura, L’Oreal e O Boticário. Entretanto, já para uso farmacológico, é necessário muitos outros estudos. Em 2015 estima-se que 50% dos produtos serão de base nanotecnológica. Estamos já dentro de uma revolução.

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ECV: E na área médica, há algum medicamento já disponível?
S.G: A tecnologia está disponível hoje, mas ela tem um custo. Além disso, há de se pensar na segurança desses medicamentos. Por isso, a prudência deve ser a melhor estratégia, é necessário que se realize estudos de caso a caso, para assim avaliar como as nanopartículas acessam os tecidos e como elas reagem. Atualmente, pode-se citar alguns exemplos de sucesso como o “DOXORUBICIN”. Usado no tratamento de carcinoma hepático celular, o nanomedicamento diminui expressivamente os efeitos colaterais no coração. No Brasil, a Anvisa liberou a importação de colírios nanotecnológicos. As partículas bioadesivas fazem com que a precisão na dose seja maior, evitando assim a perda do medicamento que acontece nos colírios convencionais.


Aline Salgado

Estagiária de Jornalismo do Espaço Ciência Viva


   

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