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| I Semana do Cérebro no Espaço Ciência Viva | Uma combinação perigosa Lei Seca movimenta debate sobre álcool e direção no Brasil
As pesquisadoras Andréa Nascimento e Maria Lúcia dos Santos, em seu artigo “Álcool e Direção: Uma Questão na Agenda Política Brasileira”, publicado em abril de 2009, traçam um panorama de como a relação entre álcool e direção foi tratada ao longo do tempo pela política brasileira. De acordo com elas, foi somente “nas últimas duas décadas do século XX, que os acidentes de trânsito foram definidos como problema de saúde pública e, dentro da discussão dos acidentes, violência e óbitos por causas externas, a combinação álcool e direção foi configurada como um problema que requer políticas públicas”. Nas últimas décadas, tanto a Política
Pública sobre drogas quanto o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) foram
adaptados ao triste cenário nacional. A primeira, alterada em julho de
2008, prevê como uma de suas diretrizes a diminuição dos problemas
socioeconômicos e culturais e dos danos causados à saúde pelo álcool e
demais drogas. Já o CTB, desde junho de 2008, reflete bem a situação de
intenso debate vivenciado pelo país em torno do tema álcool e trânsito,
afinal foi antecedido e precedido por uma grande discussão em nível
nacional acerca das novas multas e penalidades, mais severas que as do
código anterior. Ao fim, ficou decidido que o nível de alcoolemia san No entanto, o desenvolvimento de políticas combatentes à direção alcoolizada não foi acompanhado por uma melhora no número de acidentes e mortos. Ultimamente, o dado que mais chama atenção é a crescente participação dos jovens em acidentes envolvendo o uso de bebidas alcoólicas. De acordo com um estudo de 2007 da Organização Mundial da Saúde (OMS), os jovens são a maior parte das vítimas de acidentes de trânsito. Anualmente, por volta de 400 mil pessoas com menos de 25 anos morrem nas estradas e outras 1.049 se acidentam. Andréa Nascimento e Maria Lúcia dos Santos afirmam que o álcool é o principal responsável por esses números. Essa tese se mostra comprovada a partir do exemplo de estados americanos que aumentaram a idade mínima para beber e experimentaram uma redução de 10 a 15% nos acidentes de trânsito. Essa redução também pôde ser observada na cidade do Rio de Janeiro em tempos de Lei Seca. Após o início da operação no município, a discussão álcool e direção passou a fazer parte do dia-a-dia da população, contribuindo para uma mudança de hábitos do carioca. O chope após o trabalho e nos fins de semana ainda existe, porém, agora a volta para o lar acontece em transportes públicos ou de carona com o “motorista da rodada”, ou seja, o único do grupo que não bebeu. Além de uma mudança comportamental, os números mostram que a aprovação da lei teve um efeito direto na mortalidade por acidentes de automóvel: desde a sua aprovação, o número de vítimas por acidentes de trânsito por ano na cidade diminuiu 26%. Álcool e cérebro Apesar de todo esse grande alarde em torno do tema, uma grande parcela da população não sabe ao certo o efeito do álcool sobre o cérebro humano. Afinal, por que o consumo de bebida alcoólica interfere na performance de um indivíduo ao volante? Em que áreas ele atua e como se dá essa atuação? Nascimento e dos Santos, em seu artigo, ajudam a entender qual são os reflexos imediatos do álcool no cérebro humano e explicam porque a direção alcoolizada é perigosa e deve ser combatida. “No que tange a direção veicular, para que seja segura, são necessárias por parte do motorista algumas características cognitivas, tais como a atenção, concentração, coordenação visuo-manual, reflexos rápidos e precisão, que perante o consumo abusivo de álcool podem ficar seriamente comprometidas, podendo levar, dessa forma, ao acidente de trânsito” afirmam as pesquisadoras. Outros autores ainda acrescentam algumas informações. Para o neuropsiquiatra holandês H.S. Koelega, o risco de acidentes está diretamente ligado a perda da atenção e do processamento de informações, mesmo em níveis alcoólicos muito baixos. Já de acordo com o livro “Psicologia do trânsito: conceitos e processos básicos”, do também holandês J. A. Rozestraten, outro fator importante que influencia na maioria dos acidentes de trânsito envolvendo álcool é a desinibição. Isso acontece, pois, após o consumo de álcool, a aceitação de correr riscos é maior que o normal, o que causa uma queda na vigilância e na atenção, nas capacidades visuais e no julgamento da velocidade e distância. Inversamente, o tempo de reação aumenta, levando a uma reação reflexa menos precisa em caso de urgência, o que pode ser fatal. Assim, ao prejudicar a concentração e as percepções sensoriais, o álcool acaba por se constituir um risco se associado ao trânsito, segundo os cientistas, que acabam por justificar e apoiar a campanha governamental por um trânsito mais seguro. Rafael Pinto Soares – estagiário de jornalismo científico
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