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Uma combinação perigosa

Lei Seca movimenta debate sobre álcool e direção no Brasil

Praticamente um ano após o início da execução da Operação Lei Seca em diversos municípios da região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, as discussões em torno dessa medida ainda estão longe de um fim. Considerada por muitos cidadãos uma das principais responsáveis pelo caótico trânsito da cidade, a operação é defendida por diversas autoridades, por conta da contenção de acidentes de trânsito causados pelo abuso de álcool. A Operação consiste numa série de blitzs espalhadas pela cidade, onde os motoristas são sabatinados e submetidos ao teste do bafômetro. Se o teste indicar uma quantidade de álcool no corpo acima de 0,2g/l ou o equivalente a um copo de cerveja, um cálice pequeno de vinho, uma dose de uísque ou outra bebida destilada, o motorista deverá pagar uma multa 957 reais, perderá a carteira de motorista por um ano e ainda terá a carteira apreendida. Quem for apanhado com mais de 0,6g/l, ou o equivalente a três copos de cerveja, dois copos de vinho ou duas doses de uísque, no sangue poderá ser preso. Polêmicas à parte, o que se tornou notável nesses últimos doze meses de operação é a constante discussão envolvendo a dupla álcool e direção, que se mostrou ao longo do tempo perigosa e, algumas vezes, até fatal.

As pesquisadoras Andréa Nascimento e Maria Lúcia dos Santos, em seu artigo “Álcool e Direção: Uma Questão na Agenda Política Brasileira”, publicado em abril de 2009, traçam um panorama de como a relação entre álcool e direção foi tratada ao longo do tempo pela política brasileira. De acordo com elas, foi somente “nas últimas duas décadas do século XX, que os acidentes de trânsito foram definidos como problema de saúde pública e, dentro da discussão dos acidentes, violência e óbitos por causas externas, a combinação álcool e direção foi configurada como um problema que requer políticas públicas”.

Nas últimas décadas, tanto a Política Pública sobre drogas quanto o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) foram adaptados ao triste cenário nacional. A primeira, alterada em julho de 2008, prevê como uma de suas diretrizes a diminuição dos problemas socioeconômicos e culturais e dos danos causados à saúde pelo álcool e demais drogas. Já o CTB, desde junho de 2008, reflete bem a situação de intenso debate vivenciado pelo país em torno do tema álcool e trânsito, afinal foi antecedido e precedido por uma grande discussão em nível nacional acerca das novas multas e penalidades, mais severas que as do código anterior. Ao fim, ficou decidido que o nível de alcoolemia sanguínea seria de 0,6g/l ou o equivalente ao mesmo nível pelo teste alveolar14, mais conhecido como “teste do bafômetro”.

No entanto, o desenvolvimento de políticas combatentes à direção alcoolizada não foi acompanhado por uma melhora no número de acidentes e mortos. Ultimamente, o dado que mais chama atenção é a crescente participação dos jovens em acidentes envolvendo o uso de bebidas alcoólicas. De acordo com um estudo de 2007 da Organização Mundial da Saúde (OMS), os jovens são a maior parte das vítimas de acidentes de trânsito. Anualmente, por volta de 400 mil pessoas com menos de 25 anos morrem nas estradas e outras 1.049 se acidentam. Andréa Nascimento e Maria Lúcia dos Santos afirmam que o álcool é o principal responsável por esses números. Essa tese se mostra comprovada a partir do exemplo de estados americanos que aumentaram a idade mínima para beber e experimentaram uma redução de 10 a 15% nos acidentes de trânsito.

Essa redução também pôde ser observada na cidade do Rio de Janeiro em tempos de Lei Seca. Após o início da operação no município, a discussão álcool e direção passou a fazer parte do dia-a-dia da população, contribuindo para uma mudança de hábitos do carioca. O chope após o trabalho e nos fins de semana ainda existe, porém, agora a volta para o lar acontece em transportes públicos ou de carona com o “motorista da rodada”, ou seja, o único do grupo que não bebeu. Além de uma mudança comportamental, os números mostram que a aprovação da lei teve um efeito direto na mortalidade por acidentes de automóvel: desde a sua aprovação, o número de vítimas por acidentes de trânsito por ano na cidade diminuiu 26%.

Álcool e cérebro

Apesar de todo esse grande alarde em torno do tema, uma grande parcela da população não sabe ao certo o efeito do álcool sobre o cérebro humano. Afinal, por que o consumo de bebida alcoólica interfere na performance de um indivíduo ao volante? Em que áreas ele atua e como se dá essa atuação?

Nascimento e dos Santos, em seu artigo, ajudam a entender qual são os reflexos imediatos do álcool no cérebro humano e explicam porque a direção alcoolizada é perigosa e deve ser combatida. “No que tange a direção veicular, para que seja segura, são necessárias por parte do motorista algumas características cognitivas, tais como a atenção, concentração, coordenação visuo-manual, reflexos rápidos e precisão, que perante o consumo abusivo de álcool podem ficar seriamente comprometidas, podendo levar, dessa forma, ao acidente de trânsito” afirmam as pesquisadoras.

Outros autores ainda acrescentam algumas informações. Para o neuropsiquiatra holandês H.S. Koelega, o risco de acidentes está diretamente ligado a perda da atenção e do processamento de informações, mesmo em níveis alcoólicos muito baixos. Já de acordo com o livro “Psicologia do trânsito: conceitos e processos básicos”, do também holandês J. A. Rozestraten, outro fator importante que influencia na maioria dos acidentes de trânsito envolvendo álcool é a desinibição. Isso acontece, pois, após o consumo de álcool, a aceitação de correr riscos é maior que o normal, o que causa uma queda na vigilância e na atenção, nas capacidades visuais e no julgamento da velocidade e distância. Inversamente, o tempo de reação aumenta, levando a uma reação reflexa menos precisa em caso de urgência, o que pode ser fatal. Assim, ao prejudicar a concentração e as percepções sensoriais, o álcool acaba por se constituir um risco se associado ao trânsito, segundo os cientistas, que acabam por justificar e apoiar a campanha governamental por um trânsito mais seguro.

Rafael Pinto Soares – estagiário de jornalismo científico

 

 

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