| Especial Maurice Bazin|

O Educador de Cientistas

Depoimento de Tania Araujo-Jorge - Diretora do Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz - em 25/10

Conheci Maurice em 1982 por intermédio de Pedro Persechini e Solange Castro, meus amigos do Instituto de Biofisica que um dia me levaram para uma reunião que preparava um evento de astronomia numa praça da Tijuca. Duas coisas me atraíram muito no convite que Pedro me fazia para integrar o recém criado grupo Espaço Ciência Viva, o ECV, como chamávamos: a possibilidade de aproximar a ciência das pessoas comuns, e a possibilidade de interagir com um grupo multi-disciplinar. Havia físicos, matemáticos, astrônomos, biólogos, químicos, e eu seria a primeira médica a me integrar ao grupo. Uma médica mais bióloga do que médica, mas com formação médica e trabalho de pesquisa em saúde.  

bazinNo grupo Maurice se destacava pela liderança e proposição. Era um fazedor compulsivo. Nada era difícil, nada era impossível. Vamos fazer? Vamos. Quando? Agora. Não conhecia as suas credenciais acadêmicas, que depois vim a descobrir serem muito, muito, mais vastas do que eu poderia supor. Nunca tinha convivido como aluna com ele na PUC, nem como colaboradora nos seus inúmeros trabalhos anteriores. Ele nos contava as historias do Exploratorium, ao qual também fui apresentada por ele. “Um grande galpão, Tania, onde se expõem experimentos interativos em que as pessoas podem mexer e perguntar. Perguntar é o centro do movimento inteligente para fazer progredir e avançar o conhecimento, a ciência. Não temos que ter respostas, nem que dar respostas. Temos que fomentar as perguntas. Sair do museu de ciências com perguntas que lhe façam retornar ao museu é mais importante do que sair com respostas.” Parece que estou ouvindo Maurice me dizer de novo essas coisas.

Fizemos toda a logística do evento, todo o conteúdo do evento, textos para convites, convocatorias, pedidos de apoio financeiro, contatos com professores, com associações de moradores, com escolas, com a prefeitura, com as universidades para empréstimo dos equipamentos, fotos, posters, slides para conferencias em praça publica, jogos e dramatizações, enfim, tudo. E os eventos foram saindo, se sucedendo, os temas diversificando. Em paralelo fizemos um profundo trabalho intelectual de sistematização da proposta político-educativa do Espaço Ciência Viva, elaborando o projeto para captar recursos para a sustentabilidade do grupo: primeiro através do PADCT-Capes (projeto PI-348/ CAPES,PADCT-29/84), depois com a Fundação Ford e sucessivamente com CNPq, Faperj, Finep e todas as agências possíveis. Em todos os projetos fui uma grande parceira de Maurice e outros colegas na redação dos textos. E nos aproximamos cada vez mais, pois na ação e na elaboração textual compúnhamos mais e mais afinidades. Tenho muitas historias a lembrar e a registrar com Maurice, até de nossas brigas e divergências, que também ocorreram, apesar de bem poucas.

Maurice estava sempre de bom humor, ria, sorria, brincava. Hoje minha linha de pesquisa articula ciência, arte, saúde e alegria. Maurice buscava sempre as soluções e nunca se intimidava com os problemas.  Hoje eu dirijo o Instituto Oswaldo Cruz com esse mesmo espírito. Maurice buscava sempre parcerias, e se abria o mundo. Tinha amigos por toda parte e nos dava seus telefones e endereços, compartilhando seus amigos conosco para que a rede se fortalecesse. Ele me ensinou a fazer isso, parcerias, redes, cooperações, relações de confiança e de construção de coisas e pensamentos, atos e afetos.


Maurice hoje me faz muita falta. Mas me mobiliza a pensar e a refletir sobre o seu exemplo de vida e de trabalho. Parece que o escuto dizer: “vamos passar adiante isso tudo, seguir rodando, e contagiando as pessoas com a alegria do conhecimento e da descoberta”. Ciência para ele era viva e alegre. Era cheia de gente, de crianças, de jovens, de liberdade, de educadores, de aventura. Mais que nunca Maurice merece que sigamos seu exemplo. No que depender de mim, Maurice, pode ter certeza de que o exemplo foi impregnado.

Saudades
Tania

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