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| Especial Maurice Bazin| Ciência e Independência, Ser Culto para Ser Livre AO LADO DE TRABALHADORES CHILENOS Vivendo e ensinando a ciência com o povo Maurice Bazin
Estes apontamentos, extraídos de um diário escrito depois das horas de trabalho, são dedicados aos operários chilenos que me acolheram unicamente na base da utilidade que poderiam retirar da minha atividade junto deles. A fabrica está situada nos arrabaldes, rodeada de bairros de lata, a meia hora de autocarro do centro de Santiago. Este bairro de San Miguel, onde as fábricas alternam com as habitações operárias, foi bombardeado sem piedade por ocasião do golpe de Estado militar de 11 de setembro de 1973. Como a maioria das fábricas chilenas, esta tem menos de·cem operários e está instalada num local rudimentar. O edifício é uma antiga adega; o vento assobia entre as vigas do teto. No inverno, o único calor provem de pequenas braseiras acesas dentro de velhos bidões furados e instalados junto dos postos do trabalho. Setenta trabalhadores fabricam ali tudo o que é necessário para instalar uma linha elétrica, desde os postes de cimento ate as cavilhas e parafusos para fixar os isoladores, passando pelas diversas travessas metálicas. Foi destas fabricas que partiu o movimento que consistia em tomar ou retomar uma fabrica a um patrão que a votara ao abandono e pagava salários de miséria. Mas, uma vez tomada a fabrica e as decisões entregues nas mãos da assembléia geral dos trabalhadores, o problema da gestão técnica ao serviço dos interesses dos operários não fica com isso resolvido. Efetivamente, não serve de nada pretender controlar uma fabrica se aqueles que a “controlam” não tiverem capacidade para avaliar e modificar o seu funcionamento. As decisões técnicas, conseqüências das opções políticas, só poderão ser tomadas se aqueles e aquelas que controlam administrativamente a fábrica forem também capazes de avaliar e controlar os seus mecanismos técnicos; quer ocupando-se eles mesmos disso, se os técnicos “superiores” pequeno burgueses tiverem abandonado a cena, quer, no caso de estes estarem ainda em jogo, mostrando-se capazes de avaliar e de controlar as suas sugestões técnicas. Uma assembléia de trabalhadores que permanecesse mistificada pelas exposições numéricas dos tecnocratas teria do controle operário apenas o aspecto formal. Os tecnocratas poderiam muito hem continuar a impor os seus pontos de vista a massa operária em nome do saber especializado. Para superar esta situação é preciso um programa de formação técnica de base dos operários que lhes proporcione as atitudes e as ferramentas intelectuais necessárias para julgar, avaliar e decidir no domínio técnico·científico. É a isso que chamo uma alfabetização técnica que visa politicamente a estabelecer a possibilidade do controle pela massa operária. Não se trata de formar especialistas de um setor estritamente definido, se bem que certas técnicas devam claramente também ser adquiridas. Trata-se, sim, de tomar os operários atores e juízes na sua atividade produtiva, a fim de conscientemente a orientarem no seu interesse de classe. Um semelhante esforço de formação deve, também conscientemente, destruir o mito da inferioridade intelectual dos trabalhadores manuais que a burguesia tem inculcado, desde há séculos, na cabeça daqueles que explora. A minha intenção é a de ser um mero catalisador para assegurar uma transformação qualitativa na confiança dos trabalhadores em relação as suas próprias capacidades. A tarefa consiste em ajudá-los a provarem a si mesmos, ajudando-os a observar a sua prática quotidiana, que são tão capazes como os engenheiros diplomados, que são pelo menos capazes de os questionar em conhecimento de causa. Estive no Chile, de licença do meu cargo de professor universitário, no começo de 1973. A minha prática pessoal no Chile durante os últimos seis meses do governo de Unidade Popular foi a de um empenhamento direto. E por isso que a melhor apresentação desse trabalho seria a de reproduzir notas pessoais escritas dia a dia, mesmo que possam parecer por vezes cândidas a quem nunca entrou numa fabrica para ai fazer qualquer coisa de concreto. (O texto original sofreu algumas modificações com vista a facilitar a sua compreensão pelo leitor.)
13 de fevereiro de 1973 Os jovens operários que comandam as máquinas receberam-me perguntando quando iriam ter “as aulas”... Combinamos reunir-nos depois do almoço, durante cerca de meia hora, a fim de interferir o menos possível com a produção. Estive toda a manhã com um jovem trabalhador a perfurar barras de ferro com a máquina aqui chamada “guilhotina”. Essas barras eram pesadas e era difícil alinhar bem os furos porque o buril já não era novo e deixava rebarbas de metal que impediam que se fizesse deslizar a barra para passar ao furo seguinte. Mas como discutir o problema e para que iniciar a discussão se eu sabia que não havia outro buril para substituição? Todas as nossas maquinas estão velhas e em mau estado. Para não parar a produção descura·se a manutenção e o tempo gasto a fazer perguntas é considerado como tempo de produção perdido. Mas produz·se mal. Que fazer perante esta contradição dialética? Ela representa um dos problemas mais sérios para os operários desta cooperativa. O Sol estava maravilhosamente quente depois do almoço e a cordilheira dos Andes surgia ao longe, imponente no meio da bruma. Sentei·me ao pé da parede do telheiro inacabado com um trabalhador do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), soldador, e veio juntar·se·nós o único eletricista diplomado da fábrica, que regressava do exame a um estágio de formação. Estava muito nervoso, pois havia 50 candidatos para 20 lugares. Ele pretendia freqüentar os cursos pré-universitários depois de terminar esse estágio para ir em seguida para a universidade adquirir aquilo a que chama conhecimentos avançados. A conversa versou a necessidade de formar engenheiros técnicos saídos da classe operária e o fato de que a universidade atual continua a formar apenas elites e que qualquer operário que a freqüentasse teria de adotar o espírito do reitor democrata cristão Boeninger. Depois disso cada um deu a sua opinião sobre o fato de o estágio de formação ser conduzido dentro de um espírito de competição e de eliminação, pois sabe-se desde já que dos 20 estudantes admitidos apenas 10 poderão obter o diploma final. Quando entrei na oficina para retomar o trabalho, os jovens operários que trabalhavam com as prensas e as perfuradoras pediram que nos reuníssemos imediatamente sem ficarmos sequer a espera daquele que entre eles desempenha o papel de contra-mestre. Sentamo-nos em roda no chão do gabinete envidrado. Os companheiros (palavra que foi proibida depois do golpe militar) queriam aprender como é que se escolhe uma chave para apertar uma ·determinada porca. Tínhamos com efeito discutido já várias vezes, sem chegar a qualquer conclusão, o fato de que as porcas de aperto para fixar as peças das máquinas estavam todas arredondadas, e portanto, difíceis de apertar, o que fazia que algumas peças saltassem das tenazes durante o trabalho de perfuração, apresentando sérios riscos de acidente. Dispus no chão porcas de vários tamanhos e um jogo de chaves. Alguns dos camaradas insistiam que o mais simples era utilizar sempre uma chave inglesa. Outros esperavam que eu desse uma lição magistral inteiramente dedicada à utilização das chaves, como devem dar os “especialistas estrangeiros”:.. Mas, perante o meu silêncio persistente, foi necessário que um deles pegasse numa porca e experimentasse uma chave marcada com 10, 11 ou 12,ou ¾, 7/8 ou 13/16, o que significavam estes números? Donde vinham eles? Alguém observou que eram os mesmos que estavam marcados numa régua graduada em milímetros ou em polegadas. Mas nunca ninguém aprendera ou fora ajudado ou motivado a descobrir como funcionam as medidas inglesas através de sucessivas divisões por dois; nunca ninguém se dera ao trabalho de ajudar estes homens a observar e a refletir observando de perto as duas escalas que aparecem lado a lado nas craveiras utilizadas no Chile, uma graduada em milímetros, a outra em 1/16 de polegada (pois metade das máquinas da fabrica provém dos Estados Unidos ou da Inglaterra e as restantes da França ou da Alemanha, umas com medidas inglesas, outras com medidas métricas). Medimos, pois, as porcas. Mas apenas dois trabalhadores sabiam ler uma craveira. Mostraram então aos outros como se fazia a leitura e, ao fim de vinte minutos, havia já seis trabalhadores capazes de fazer medições com uma precisão do décimo de milímetro. Havia, porem, dois companheiros que continuavam a não compreender a lógica da posição do zero da escala. Assim, entre a medição dos parafusos e a aprendizagem da leitura da escala métrica de uma craveira, deixamos de lado a leitura em frações de polegada. O que é uma chave de 5/16? Como levar estes homens que nunca ouviram falar de frações a fazer estas medições? Neste instante ainda não o sei. Deixarei esta discussão para amanhã. Os companheiros estão tão ávidos de descobrir que saberão muito bem formular as questões necessárias; não é agora que vão abandonar esta luta. E fui eu que tive de intervir hoje para por fim a nossa sessão de trabalho e sugerir que voltássemos à produção. Mas antes de reiniciar o trabalho começamos por medir o diâmetro das porcas nas próprias máquinas, confirmando que todas elas tinham dimensões fixas, standard, que correspondiam efetivamente de um modo único às dimensões das diversas chaves. Aquilo que tínhamos descoberto e verificado juntos era essa correspondência única entre as dimensões das porcas, as dimensões das chaves e os números nelas gravados. É evidente que antes de começar esta sessão eu não sabia que era isso o que devíamos elaborar e descobrir em conjunto. Foi juntos que o descobrimos. A partir de agora as porcas dos tomos das máquinas deixarão provavelmente de ficar moídas pelo usa de uma chave escolhida ao acaso. Ao fim da tarde, o grupo de mecânicos, uma dúzia de homens, reuniu·se a pedido de um velho operário experiente que pretendia discutir o problema do trabalho perdido e da produção desperdiçada e propor uma solução. O problema é sério, pois mais de cem anéis de fixação de cabos acabam de ser recusados como defeituosos pelo inspetor da companhia de eletricidade. Cada um desses anéis é fabricado dobrando sobre ela mesma uma comprida peça metálica chata na qual se faz previamente um furo junto de cada extremidade. Os furos tinham sido feitos com tão pouco cuidado que não estavam suficientemente alinhados, uma vez dobrada a peça, para deixar passar o parafuso de aperto. O velho trabalhador insistiu sobre o problema do custo do trabalho perdido e do metal desperdiçado. A solução que tinha a propor era a de se contratar um novo contramestre de fora e que, dizia ele, fosse capaz de por cada um dos operários a trabalhar com perfeição e de supervisionar toda a gente em todas as fases de fabrico. Foram necessárias muitas questões levantadas pelo operário do MIR que presidia a reunião e por mim mesmo para que fossem discutidas outras maneiras de controlar a qualidade da produção. A discussão alargou·se então para saber se os próprios operários não seriam capazes de se organizar para assegurar o controle da qualidade de seu próprio trabalho. Porque é que o trabalhador que sua todo o dia em frente do banho de zinco fundido para galvanizar as peças não disse nada ao ver os anéis de fixação tão defeituosamente perfurados e continuou o seu trabalho extenuante, para nada? Porque é que muitos deles ignoravam que através dos dois furos sobrepostos tinha de passar um parafuso? Porque é que o trabalhador que lançava hoje o alerta não discutira o problema mais cedo, diretamente com os outros, aqui e ali? E como é que aqueles que fazem os furos com o berbequim tinham podido ser tão desleixados a ponto de os furos saírem descentrados em meio centímetro numa peça com a largura de cinco?
O companheiro que tinha iniciado a reunião apresentou de novo a sua proposta de contratar um contra-mestre de fora, declarando ao mesmo tempo que tudo aquilo que ele hoje sabia o aprendera com os colegas de trabalho, na pratica. Depois alguém observou que todos os operários teriam de saber fazer medições corretas... Amanhã voltarei, portanto, a sentar-me no chão com eles; penso cortar um pedaço de papel com uma polegada de largura em 16 bocados iguais e, de uma maneira ou de outra, com a colaboração de todos, acabaremos por descobrir o que quer dizer 1/8 e também que 1/8 e 14/16 significam a mesma coisa.
Sexta-feira, 16 de março de 1973 Cada dia passado ao lado dos trabalhadores é entusiasmante. Vejo confirmado nos fatos que aqueles que fazem funcionar os meios de produção são os elementos progressistas da sociedade. Viver esta realidade no concreto, cada dia, é maravilhoso. Não se sente aquela semi-alienação que se abate sobre aqueles que se limitam exclusivamente à leitura de análises marxistas feitas por outros e que lhes deixa um sabor de insatisfação. Ontem, o camarada que mergulha as peças metálicas no ácido clorídrico antes de as galvanizar descreveu·me a maneira como os operários tinham modificado o processo de galvanização que eu acabara de ler no manual da Associação Americana dos Galvanizadores. Este processo, que eles tinham inicialmente utilizado, parecera·lhes demasiado dispendioso em tempo e em pessoal e, de qualquer modo, não dava bons resultados. Outrora era necessário um banho desengordurante, um banho de ácido suIfúrico, uma lavagem, um banho de fundente (uma mistura saturada de zinco e de ácido clorídrico puro) e, finalmente, um banho de zinco fundido a uma temperatura que, segundo o manual, deveria ser mantida a 450 graus, com dez de oscilação possível. Hoje utilizam apenas um banho de ácido clorídrico a 25%, secam as peças e polvilham nas com “sal de amônia” e depois mergulham nas no zinco fundido, que mantém a uma temperatura adequada, vigiando a cor das peças à saída do banho e abrindo mais ou menos a válvula do fuel do aquecimento. Estes homens que assim economizaram os seus próprios esforços e diminuíram o custo do processo de galvanização não sabem fazer uma divisão nem o que é uma fração. Mas souberam de fato ultrapassar os ditames técnicos que várias gerações de engenheiros pequeno burgueses bem educados respeitaram como regras sagradas. Comecei o meu dia de hoje no centro de documentação na Quimantu, casa editora nacional do Chile, para ai consultar as publicações do Centro Nacional das Ciências e Tecnologias. As suas atividades são ambíguas: por um lado, o centro administra toda uma série de bolsas controladas pelos países «desenvolvidos» na melhor tradição do imperialismo cultural. Por outro lado, o último número do boletim semanal do Conselho anuncia a criação de um prêmio, desdobrado em dois, para a investigação e as descobertas: um para uma investigação acadêmica habitual e o outro para uma iniciativa técnica tomada por trabalhadores de uma fábrica. Ao caminhar ao longo do rio Mapocho, para apanhar o autocarro que me levaria até a fábrica, pus·me de súbito a imaginar, num acesso de entusiasmo que quase me fez correr, que os meus camaradas de trabalho poderiam ganhar o primeiro premio nacional pela sua simplificação do processo de galvanização. E mentalmente passei em revista as lutas que eles tinham conhecido ate chegarem a situação de serem possíveis as suas próprias iniciativas técnicas. Ontem a noite, a saída da Assembléia semanal, um dos velhos dirigentes contou·me o modo como há quatro anos tinham começado, no tempo do presidente democrata·cristão Frei: fora na fábrica deles que se iniciara a movimento de ocupação e tomada da gestão das fábricas pelos trabalhadores que expulsaram o patrão. Nenhum deles guardou a panfleto redigido nessa altura para distribuir nas outras fábricas e nos sindicatos com o pedido de apoio. Tinham simplesmente iniciado uma nova etapa na luta de classes no Chile; viveram·na e sofreram com ela; hoje trabalham como então, sem se preocuparem com qualquer publicidade. Encontrava·me, pois, de novo a caminho dos subúrbios industriais. Ao chegar a fábrica propunha me reunir um novo grupo de seis operários para outra discussão técnica - aqueles que fabricam os tubos de proteção dos esteios dos postes elétricos. Mas no caminho fui apanhado por um soldador que me pediu para o ajudar a bloquear no sentido do comprimento os tubos que tinha para soldar. Esses tubos de dois metros de comprido são feitos de chapa fina, enrolada sobre ela mesma e soldada em 35 pontos. Dado que havia uma encomenda de 1500 tubos, a soldador chegara à conclusão que valia a pena repensar a maneira de fechar o tubo sobre ele mesmo para aplicar os pontos de soldadura. Até aqui isso fazia·se num torno, obrigando o tubo a deslizar aos poucos entre as tenazes que o trabalhador apertava e desapertava de cada vez. A operação levava quase uma hora por tubo. Perante o problema, estávamos, porém, os dois muito pouco seguros de nós mesmos: ele pensava que não seria capaz de inventar, e por isso me tinha chamado; eu, pela minha parte, estava atemorizado com a exigência da utilidade imediata. Dispúnhamos apenas de ferramentas simples: martelos, tomos, área de soldadura e pedaços de ferro na zona de armazenagem. Pusemo-nos ao trabalho. Juntamos duas cantoneiras compridas para fabricar uma longa tenaz que permitisse fechar o tubo em todo o seu comprimento e, assim, aplicar de uma só vez os pontos de soldadura. Confeccionamos a dobradiça com pedaços de tubos soldados ao longo do rebordo de cada cantoneira, alternadamente, e passando uma barra de ferro pelo interior. Algo começou a tomar forma. Depois instalamos dois tornos sobre a mesa de soldadura; mas o nosso instrumento, que se assemelhava a uma goteira articulada, não permanecia imóvel nos tornos e deslocava-se de um lado para o outro; alem do mais, o conjunto era tão pesado que os dois tivemos dificuldade em levantá-lo. O meu camarada decidiu então soldar algumas peças em jeito de balizas diretamente nos tornos para que a nossa tenaz permanecesse fixa com a abertura virada para cima. Já tinha tocado a sirene a anunciar o fim do dia de trabalho quando acabamos de fixar as últimas balizas. Mas faltava ainda resolver onde e que se deviam colocar os dois tomas ao longo da tenaz para que esta fechasse o tubo o mais uniformemente possível. Como bom formador, comecei a discutir então o problema com o meu companheiro de trabalho; mas ele interrompeu-me bruscamente, observando-me que eu sabia muito bem onde se deviam colocar os tomos para obter o resultado desejado e que deixássemos as discussões dinamizadoras para outra altura. Uma vez mais encontrei-me face a face com uma maravilhosa contradição, por um lado, o meu papel de formador, que se deve limitar a ajudar os outros a descobrir e a decidir sozinhos, e, por outro lado, as exigências imediatas da produção. Mas a resolução desta situação dialética não tardou a tornar-se evidente para ambos pois, ao fechar os tornos, aproximando assim uma da outra as bordas do tubo a todo o comprimento, de uma só vez, verificamos que a junção não formava uma linha reta, mas, pelo contrário, tomava uma forma de hélice, desaparecendo sob a rebordo de uma cantoneira. A resolução do problema encontrava-se noutro lado. Residia uma vez mais na necessidade de ligar o nosso trabalho ao dos nossos camaradas encarregados da operação anterior; eles não tinham alinhado a falha retangular de metal com suficiente cuidado na prensa que a transformava em cilindro. É com eles que temos absolutamente de discutir o nosso trabalho de hoje para que este venha a ter sentido. Só quando eles tiverem compreendido que precisamos de uma junção bem alinhada é que poderão resolver prestar uma maior atenção ao alinhamento da folha na prensa. Nem o meu camarada nem eu teríamos sido capazes de criar sozinhos o que tínhamos criado a dois; havíamos controlado e reformulado o que cada um pensava e fazia. E, para mim, o melhor momento foi quando saímos juntos sob o sol poente avermelhado que desaparecia atrás das chaminés das outras fábricas de San Miguel e o meu companheiro me disse: “Sabes, nos outros dias produzimos; mas hoje, para lá disso, criamos qualquer coisa”. E fomos depois beber uma laranjada na tendinha situada perto do campo de futebol improvisado entre, de um lado, o bairro de Iata onde flutuam lado a lado as bandeiras do Partido Socialista e do Movimento da Esquerda Revolucionaria e, do outro, o alto muro de uma fábrica sobre o qual está pintado o slogan: «Avancemos com a distribuição direta dos produtos alimentares.» Quando nessa noite alguém da universidade me telefonou para me convidar a dar um curso de teoria dos grupos (uma teoria de matemática avançada) respondi muito simplesmente: “Não tenho tempo”.
Segunda-feira, 18 de junho de 1973. Conversei com o novo contabilista, um antigo estudante que se tornara operário, regressara depois aos estudos e voltara agora para a fábrica - depois de ter obtido um diploma. Calculamos juntos o custo do processo de galvanização que ele não conseguiu avaliar a partir dos dados disponíveis. Utilizamos os meus velhos apontamentos do tempo em que dava exercícios de aritmética aos camaradas da galvanização a partir dos dados do seu trabalho. Mais tarde, o contabilista reuniu todos os camaradas da galvanização para discutir com eles o preço de custo da produção das diferentes peças fabricadas.
Quarta-feira, 4 de julho de 1973. Durante o almoço, um camarada que trabalha na fabricação dos postes de cimento armado, ao fundo do pátio da fábrica, pediu-me que me reunisse a sua equipe para lhes explicar como se deve ler um projeto, tal como fizera algumas semanas antes com os camaradas da oficina. Juntamo-nos em grupo ao ar livre, ao lado da betoneira, em cima da qual um trabalhador batia de tempos a tempos com um pau para impedir que a massa aderisse. Tínhamos desdobrado em cima da mesa de madeira o projeto dos postes de cimento armado de dez metros e um camarada perguntou·me logo a seguir: «Como é que podemos ver o tamanho desta reentrância aqui desenhada mas que não tem as dimensões indicadas ao lado?» Era preciso procurar, portanto, onde estava escrita a escala do plano. Mas o conceito de escala, a própria convenção de representar um objeto através de um desenho «em escala», eram totalmente novos para a maioria dos meus camaradas de trabalho. Começamos - então a procurar onde é que estava escrito “Escala 1:20” e “Escala 1:5” no plano geral nos perfis de pormenor, respectivamente. Começamos por medir o tamanho da seção do poste (três centímetros no perfil) com dificuldade, contando os centímetros um a um na fita métrica que eu era o único a possuir no grupo. Três centímetros era demasiado pouco para ser a largura verdadeira do poste. Discutimos então e vimos o número 5; evidentemente que tive de dar algumas explicações. Compreenderam: a realidade era cinco vezes maior, cinco vezes maior quer dizer? Quer dizer 25, disse um deles. - Não, cinco vezes três centímetros não são 25 - Quantos são? perguntei eu. - São dez ou um pouco mais, propôs outro camarada. - Um minuto! disse eu, então. Cinco vezes um são ... - Cinco. - Cinco vezes dois; perdão, duas vezes cinco são ... - Dez. - E três vezes cinco são ... Quinze ... E no silencio que se seguiu, enquanto o sol se escoava por entre a bruma poluída da tarde e o frio da neve fresca na Cordilheira nos fazia enfiar a cabeça entre os ombros, um dos companheiros sorriu, olhando-nos satisfeito, disse pausadamente: “Então é para isso que serve a tabuada!” E o vento picou-me os olhos que se umedeceram por ter sido ator na tomada de consciência que consiste em trincar o fruto do conhecimento e do poder. Os meus companheiros tinham recitado as litanias matemáticas nos bancos da escola antes dos quinze anos. Desde então, um deles tinha engarrafado «pisco» numa fabrica donde fora despedido por ter adormecido nos lavabos, sucumbindo aos vapores do álcool e à tentação de lamber a gota que transbordava das garrafas. Tinham-se encontrado todos aqui, a desenrolar os cabos de ferro das bobinas para armar o cimento, com o cabrestante mais rudimentar do mundo. «Sabiam» de cor a tabuada aprendida em obediência aos professores primários. Mas ninguém lhes dera oportunidade de utilizar esse saber armazenado. Fomos depois acocorar·nos junto do molde de ferro dos pastes, onde verificamos que a largura era mesmo de quinze centímetros. Tínhamos ali a mão o próprio molde e a reentrância que permite economizar cimento, essa mesma cujas dimensões o nosso camarada pretendia conhecer no inicio da nossa reunião e que ali a nossa frente podia ser também medida. Mas a parte do plano correspondente era a escala 1:20 e não a escala 1:5. Foi preciso medir no projeto em milímetros, não confundir a estria que aparecia de cinco em cinco milímetros com a que aparecia de centímetro a centímetro, não tomar o 4 pelo 9. E depois foi preciso multiplicar por vinte, o que não foi propriamente nesse dia que conseguimos realizar. Chegara o momento de cansaço intelectual depois de a atenção ter sido mobilizada durante uma boa meia hora. Era agora mais proveitoso voltar a enfiar as luvas e preparar as armações de ferro. A betoneira tinha já pronta a massa a vazar no molde aberto a nossa frente.
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