| Especial Maurice Bazin|

O Cientista Como Alfabetizador Técnico

Por Maurice Bazin

Começaremos por apresentar as idéias do autor sobre aquilo a que ele chama a alfabetização técnica. Este texto foi retirado da apresentação que ele fez em 1972 numa conferência sobre o imperialismo na América Latina, cuja primeira parte se encontra reproduzida no capitulo V. Esta apresentação teórica, baseada em discussões que tiveram lugar no Chile na época do governo de Unidade Popular, em 1971, seguida de um texto que reflete diretamente à pratica do seu autor, de novo no Chile, em 1973.

É necessário que o cientista seja capaz de fazer frente as suas próprias contradições, que reconheça, por um lado, a sua posição na elite dominadora que se opõe à ideologia de «servir ao povo», mas que reconheça também que é possuidor de um saber técnico que é possível comunicar para dar a outros um certo poder sobre o mundo. Ele pode assim decidir pôr esses conhecimentos ao serviço concreto das massas, abandonar a teoria abstrata e passar à prática libertadora. Traindo a sua classe de origem, poderá tornar·se útil. Mas isso não se produz facilmente.


Nos bairros de Iata de Santiago do Chile, uma prática ideologicamenle libertadora poderá partir do fato de a eletricidade ser ali rara, mas muito desejada, e de cada um “se servir” através de derivações diretas dos cabos de alimentação com quaisquer restos de fios metálicos. É preciso compreender o valor educativo da situação e, sobretudo, não mandar eletricistas profissionais para normalizar toda a rede elétrica mesmo em frente do residentes que se limitam ao papel de espectadores. Os problemas concretos (os contatos deficientes, as sobrecargas, os isolamentos, a proteção contra os raios) que a realidade levanta permitem iniciar diretamente discussões sobre o que é a eletricidade, alfabetizar tecnicamente as pessoas em questão em vez de aborrecer com as fórmulas de Biot·Savart ou as leis de Ohm (mais uns tantos sábios ocidentais, uns seres excepcionais a respeitar (venerar)!) aprendidas de co (memorização sem compreensão). Deste modo contribui-se para que o estudante domine alguns aspectos técnicos em vez de passar a respeitar (venerar) esses princípios no abstrato. Receberá a catálise inicial para aprender mais ainda, mantendo-se ligado a prática e sem sentir-se alienado. E evidente que um semelhante “ensino” ligado às realidades locais poderá parecer correr o risco de ser caótico: de fato, porém, uma semelhante reação não passa do reflexo do nosso complexo do quadro negro, e uma campanha de alfabetização técnica não tem razões para ser mais caótica do que uma campanha habitual de alfabetização.

Do Por favor Não Mexer ao Por favor, Mexa em Tudo!
De acordo com a óptica aqui apresentada pergunta-se, pois, o que e que deverá substituir o professor que montou o seu telescópio no meio de um bairro de Iata com um letreiro “não mexer”. Esse colega, cheio de boa vontade, pensava transmitir a ciência aos pobres fazendo-os maravilhar-se por verem a Lua em ponto maior através de um aparelho misterioso. Ideologicamente, nós pretendemos, pelo contrário, que o ser humano mexa, desmonte, penetre, compreenda, domine.

A Origem das Noites do Céu...
Com este objetivo, e evidentemente de um modo mais formal do que no caso da eletricidade atrás citado, podemos imaginar sessões, talvez inclusivamente nos próprios locais de trabalho, durante as quais os operários possam manejar lentes, descobrir a formação de·imagens e as possibilidades de ampliação.

Confiança na capacidade do ser humano
Finalmente, através do manuseio de duas lentes acabarão por descobrir o que é um telescópio. Será, então, altura de lhes observar que o que acabam de fazer é a mesma coisa que se lhes havia dito que só os homens excepcionais como Galileu eram capazes de descobrir.

Crítica ideológica ferrenha
Criar-se-á assim no homem do povo a confiança em si mesmo face aos problemas técnicos que lhe permite deixar de venerar os prêmios Nobel, deixar de aceitar o imperialismo cultural que representam, compreender que alguns deles não passam de simples criminosos devido a sua participação no desenvolvimento da guerra tecnológica contra o povo vietnamita.

O que fazer?
Os cientistas têm, portanto, muitas coisas a fazer em vez de se deixarem fechar na vida burguesa egoísta do investigador “puro”. Quando os físicos me perguntavam no Chile a que tipo de investigações se deviam dedicar, respondia-lhes que no contexto político da época qualquer tipo de investigação seria contra-revolucionário. É preciso que o cientista faça qualquer coisa de concreto em relação às massas; terá ele próprio de escolher de qual dos lados se quer situar, pois, de outro modo, essa opção será feita automaticamente pelo sistema.

A insistência de por a questão sobre o plano do tema da investigação a realizar no Chile durante o governo de Unidade Popular é fruto de uma ideologia reacionária. E preciso por o problema na perspectiva daquilo que pode ser útil para as massas. Há tantas coisas a fazer; antes de fixar e isolar o pouco de energia intelectual disponível na “investigação”, há que sanear os esgotos.

Alfabetizar
E, muito mais importante que cada projeto concreto, há a tarefa fundamental de que nos fala Paulo Freire: a de promover um poder de análise intelectual nas massas. O seu trabalho está relacionado com a alfabetização com um desígnio político. Alfabetizar realmente não e transmitir uma habilidade puramente técnica para ler e escrever. Alfabetizar só tem sentido se o uso das palavras fizer que o ser humano possua e modifique o mundo, compreendendo-o e exprimindo-se.


Cabe aos cientistas participar no mesmo objetivo ideológico, substituindo o ler e o escrever por aptidões técnicas e por atitudes cientificas. Mas estas devem estar ideologicamente associadas a um conteúdo político. Se a ciência não é neutra, cabe-nos torna-Ia ideologicamente ativa, levá-la a ser dominada pelas massas para libertar os homens e as mulheres de todos os mitos cientistas exploradores.


Uma primeira medida consiste em extirpar o mito das caixas pretas (dos aparelhos misteriosos, intocáveis, sobre os quais não se fazem perguntas: como ajudar um camponês cubano que amarra uma bateria nova ao seu trator com fio de ferro (provocando, pois, faíscas, etc.), isto é, como comunicar a esse camponês uma atitude que o leve a decidir por ele mesmo não utilizar fios metálicos com essa finalidade?

O Cientista Revolucionário
Eis o gênero de problemas que todo o cientista que se diga revolucionário dever resolver. Não se fale de investigação, de investigação sobre a resistência dos fios metálicos ou sobre o isolamento dos mesmos. Se essas investigações se revelarem um dia necessárias, pois que sejam os próprios camponeses a reconhecê-lo, uma vez que se encontrem no poder no sentido de poder de gestão e de avaliação inte1ectuais. Entretanto, o dever do cientista é o de comunicar ao camponês aquilo que lhe ira permitir exercer esse poder em plena posse das realidades da sua época.


Estas observações sobre a necessidade da alfabetização técnica visam, tal como a alfabetização habitual, não apenas libertar as massas do seu estado de sujeição, quer econômica, quer intelectual, mas acima de tudo, a dar-lhes a possibilidade de iniciativa e de controle próprios; visam criar as armas intelectuais necessárias ao exercício pratico da hegemonia do proletariado. Se bem que estas observações tivessem sido apresentadas numa conferencia sobre um imperialismo na América Latina realizada numa universidade norte·americana, o seu alcance prático será quase nulo em todos os países capitalistas de hoje onde a ideologia dominante consiste em negar a existência de questões ideológicas. Foi por isso que falei concretamente apenas de Cuba e do Chile, países onde o meio intelectual é de modo a permitir que as questões ideológicas sejam postas em primeiro plano e onde, por conseqüência, a necessidade ideológica de uma alfabetização técnica agressiva das massas pode ser discutida objetivamente com vantagem. Não se põe a questão de propor uma reforma de métodos pedagógicos nos países ditos desenvolvidos. O que importa é facultar as massas do Terceiro Mundo em estado de libertação política as armas necessárias a sua luta anti-imperialista no domínio mais difícil: o do imperialismo cultural.


E mesmo num meio ambiente em maturação como o do Chile a tarefa não é simples. E fácil apontar os erros. Assim, durante o Inverno de 1971 os mitos cientistas pavoneavam na primeira página dos jornais, veiculados pelo próprio Presidente Allende; provavelmente por razões de prestigio nacional, Allende inaugurou um congresso internacional de cirurgia cardíaca em Viña del Mar, o Estoril chileno. É necessário perguntar se o povo chileno, se os índios Mapuche do Chile, morrem de doenças cardíacas ou se, como é o caso, os seus filhos são dizimados pela diarréia infantil. Mas Allende deu relevo ao valor da investigação na mais alta cirurgia avançada; e os jornais deleitaram-se com a presença dos grandes especialistas; e os seus leitores não tiveram outro remédio senão invejar e venerar esses sábios viajantes e congressistas para quem os pobres do mundo não passam de cobaias gratuitas.


Mas no Chile, em 1971, era possível contestar estas atitudes denunciando as suas conseqüências ideológicas e despertar a necessária consciência critica.

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