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| Especial Maurice Bazin| Je Vous Salue, Maurice
A coisa essencial é que cada vez o Serre sentia fortemente a riqueza por trás de um enunciado que, na página em preto e branco, sem dúvida me deixaria neutro (nem frio, nem quente) – e ainda conseguia transmitir esta percepção de uma substância rica, palpável e misteriosa – a percepção que é, ao mesmo tempo, o desejo de conhecer aquela substância e de penetrá-la. – Colheitas e Semeaduras, página 556. Estas palavras foram escritas pelo brilhante matemático francês Alexandre Grothendieck descrevendo seu colega Jean-Pierre Serre, a quem chamava de “detonador”, aquele que gera a faísca que acende o pavio para causar uma explosão de idéias. Eu acho essas palavras, bem como o termo detonador, particularmente apropriadas em relação ao nosso querido colega Maurice Bazin, arrancado repentinamente do nosso convívio, pois descrevem sua curiosidade insaciável e seu desejo de chegar a um entendimento profundo, compreender e “sentir” as coisas, sejam elas oriundas de ciência, sociedade ou colegas. E nunca era curiosidade sem nexo, porém sempre com a intenção de desmistificar, reduzir ao mínimo denominador comum e compreensível, sempre mantendo rigor e racionalidade, e estimulando todos em sua volta a descobrir juntos.
Estamos desolados, porém confortados por terem tido o privilégio de serem iluminados por alguém tão caloroso e humano e, ao mesmo tempo, racional e rigoroso, uma mistura que sempre nos causará saudade e que perseguiremos para o resto das nossas vidas. Fecho com outra citação de Grothendieck, que o Maurice teria apreciado: Et toute science, quand nous l’entendons non comme un instrument de pouvoir et de domination, mais comme aventure de connaisance de notre espèce à travers les âges, n’est autre chose que cette harmonie, plus ou moins vaste et plus ou moins riche d’une époque à l’autre, qui se déploie au cours des générations et des siècles, par le délicat contrepoint de tous les thèmes apparus tour à tour, comme appelés du néant – Récoltes et Semailles, page P20. E toda ciência, quando entendemos não como um instrumento de poder e dominação, porém como uma aventura de conhecimento da nossa espécie através dos tempos, que não é outra coisa senão esta harmonia, mais ou menos vasta, mais ou menos rica, de uma época a outra, que se desdobra ao longo das gerações e dos séculos, através do delicado contraponto de todos os temas aparecendo em seqüência, como se fossem chamados do nada. – Colheitas e Semeaduras, página P20. Viva Ciência, Viva o Espaço de onde Maurice agora nos espia, com aquele olhar maroto.
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