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PLUTÃO - PLANETA EQUATORIALMENTE PREJUDICADO

Primeiramente tínhamos os planetas clássicos, aqueles conhecidos desde a antiguidade, e que podem ser vistos no céu sem o auxílio de qualquer instrumento ótico: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

Mercúrio
Vênus
Marte

Júpiter
Saturno

Com o advento do telescópio astronômico no século XVI tornou-se possível observar dois outros corpos que se assemelhavam aos planetas clássicos. Apesar de muito distantes, têm tamanhos consideráveis, maiores do que a Terra, mas menores do que Saturno, e foram designados como os planetas Urano e Netuno.

Urano
Netuno
Terra
Plutão

No panorama da astronomia do século XVIII percebeu-se uma coincidência bastante curiosa no posicionamento dos planetas. A "lei de Tittius Bode", como ficou conhecida, encontrava uma suposta continuidade na distância entre os planetas e o Sol. A coincidência existe de fato e é capaz de estabelecer, com razoável precisão, as distâncias dos planetas, desde que se considere também a existência de um planeta entre as órbitas de Marte e Júpiter.

Quando na noite de 1 de janeiro de 1801 o astrônomo italiano Piazzi descobriu o asteróide Ceres exatamente numa órbita entre Marte e Júpiter houve uma tendência para que Ceres fosse considerado um planeta. Estudos posteriores revelaram que Ceres tinha pouco menos de 1000 quilômetros de diâmetro e que compartilhava sua órbita com dezenas (atualmente são conhecidos milhares) de outros corpos de todos os tamanhos. Assim, Ceres tornou-se apenas o maior asteróide do sistema solar e deixou vago o lugar do planeta proposto pela lei de Bode.

Ao longo do século XIX, pequenas discrepâncias entre as posições previstas e observadas para o planeta Urano sugeriam a presença de um elemento perturbador cuja gravidade alterasse a posição do planeta. Seguindo esta possibilidade, o astrônomo frances le Verrier decobriu o planeta Netuno em 1846. Urano e Netuno são gigantes gasosos, não tão majestosos quanto Saturno ou Júpiter, mas muito maiores do que a Terra. Permanecem nos confins gelados do sistema solar mas foram adotados, sem dúvidas, como planetas.

Contudo, as observações continuavam sugerindo a presença de mais um corpo perturbando as órbitas dos planetas Urano e Netuno, e suspeitava-se que poderia existir ainda mais um planeta por descobrir. Em fevereiro de 1930 o jovem Clyde Tombaugh comparou fotos tiradas em dias subseqüentes e descobriu um pequeno ponto luminoso que se deslocava entre as estrelas entre uma noite e outra.

Plutão permaneceu quase desconhecido durante a maior parte do século XX. Mesmo os maiores telescópios não mostram mais do que um pálido ponto luminoso, mas pouco a pouco foram surgindo evidências de que se tratava de um planeta realmente pequeno. Somente em junho de 1978 a tecnologia permitiu fotografar Plutão com uma resolução suficiente para detectar a presença de uma lua quase do mesmo tamanho que Plutão. O satélite Caronte girando lentamente muito próximo de Plutão permitiu que se determinasse com grande precisão a massa e o tamanho de Plutão, mas não chegou a constituir uma surpresa que o planeta se revelasse um pouco menor do que a nossa própria Lua! Ficou patente que Plutão não tinha massa suficiente para ser responsabilizado pelas perturbações nas órbitas de Urano e Netuno, e a própria órbita de Plutão, muito diferente das órbitas de todos os outros planetas, indicavam que ainda havia muito por descobrir.

Na virada do milênio, começaram a ser descobertos vários corpos nos confins do sistema solar, vários deles na mesma distância em que Plutão permanece. Começava a surgir um novo "cinturão de asteróides" semelhante ao existente entre Marte e Júpiter e do qual Ceres é apenas o maior componente. Do mesmo modo, Plutão parecia ser apenas o maior representante de um cinturão de pequenos corpos, orbitando além da órbita de Netuno. Até que, em 2003, confirmou-se a descoberta de 2003-UB313, provisoriamente denominado Xena, e que parece ser maior do que o próprio Plutão.

Vem, portanto, do final do século XX, a idéia de reclassificar Plutão não mais como planeta, mas como o principal representante de uma nova categoria de "asteróides" na qual se encaixa um número cada vez maior de corpos como Sedna, Orco e Quaoar.

A questão de fundo de toda esta conversa é que, não existe uma definição natural para o que seja um planeta, do mesmo modo que não temos uma definição rigorosamente científica para "adulto". Quando é que você se torna um adulto? Na manhã do dia em que completou 18 anos? Você sentiu algum efeito físico desta transformação? Quando é que passamos para a "terceira idade"? Um belo dia você acorda com uma dor indefinida e descobre que ficou velho?

Existem corpos de todos os tamanhos, formas e composições girando em torno do Sol e de outras estrelas. Naturalmente existe um número relativamente pequeno de grandes corpos e uma quantidade incontável de corpos miúdos. O limite exato para que um corpo deixe de ser asteróide e passe a ser um planeta será sempre uma mera convenção humana.

Alguns exemplos para ilustrar a diversidade de tamanhos dos astros:
- um cometa exibindo sua cauda de gás rarefeito pode se estender por mais de cem milhões de quilômetros e tornar-se por um breve período o maior corpo do sistema solar, embora seu núcleo raramente exceda os 10km.
- Ganimedes, a maior lua de Júpiter e do sistema solar, tem 5200km de diâmetro, e é maior do que o planeta Mercúrio. Ganimedes tem até uma atmosfera espessa, ao contrário do desnudo Mercúrio.
- Plutão é menor do que a Lua da Terra. Enquanto o primeiro tem cerca de 2300km de diâmetro, a Lua tem 3400km.

Por fim, uma questão curiosa. Desde a descoberta de Caronte, girando em torno de Plutão, e frente à aceitação de que Plutão seria um planeta, considerava-se que o sistema solar tinha DOIS planetas duplos, isto é, sistemas compostos por dois corpos de massa comparáveis, girando em torno de um centro de massa comum e, este centro sim, girando em torno do Sol. O outro planeta duplo do sistema solar é a própria Terra, cuja Lua é somente seis vezes menor do que o "corpo principal". Em todos os outros planetas do sistema solar, as luas têm massa centenas de vezes menor do que os planetas que circundam!

Ainda há muito por descobrir "lá fora"!

Sergio Lomonaco
Grupo de Astronomia NGC-51

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