| ciência em debate (artigos)

O Cancer de Tabu

Em 2000, o Hospital do Câncer e a FAPESP lançaram uma campanha de incentivo à busca pelo diagnóstico precoce do câncer, e à mudança de hábitos que podem expor o indivíduo a um maior risco de desenvolver a doença. O grande marketing foi associar determinados tipos de câncer a idéias e comportamentos nocivos, como o câncer de pulmão ligado ao consumo de tabaco; o câncer de pele à exposição abusiva ao sol; o câncer de próstata associado ao... tabu! Conforme relata o pesquisador Romeu Gomes (Fiocruz), “reflexos do imaginário social acerca da identidade sexual masculina podem fazer do toque retal, medida preventiva desse tipo de câncer, uma situação, no mínimo, constrangedora”, afastando muitos homens da auto-preservação. Ao negligenciar o exame de toque, estes homens agravam voluntariamente os riscos para sua saúde, uma vez que a identificação precoce do câncer é fundamental para que se aumentem suas possibilidades de cura.

O câncer de próstata é o segundo mais comum na população masculina brasileira. Segundo o INCA (Instituto Nacional do Câncer), o número de casos novos estimados para o Brasil, em 2008, é de 49.530, o que corresponde a aproximadamente 52 casos a cada 100 mil homens. O diagnóstico da doença é feito pelo exame clínico (toque retal) e pela dosagem sangüínea do antígeno prostático específico (PSA), que podem sugerir a existência do câncer e indicar a realização de outros exames mais específicos (ultra-sonografia pélvica ou prostática transretal e biópsia prostática transretal). Embora o PSA seja uma alternativa de exame diagnóstico, seus resultados não são tão precisos quanto o toque, fazendo do exame clínico ainda uma necessidade primordial. E é aí que mora o perigo!

Para Romeu Gomes, não é a falta de informação que afasta os homens do exame de toque, mas sim três outros fatores que mexem com características identitárias masculinas:

  1. a dor simbólica de ser tocado numa parte “interditada”
  2. a possibilidade de se ter uma ereção como reação fisiológica ao toque (lê-se: o temor de que o(a) médico(a) interprete isso como sinal de prazer)
  3. a descontração para que o processo seja menos doloroso (lê-se: o temor de que o(a) médico(a) interprete isso como sinal de que a penetração nessa parte é algo comum e/ou prazeroso).

Diversos artigos sugerem que as noções em nossa cultura acerca da masculinidade afetam diretamente na atitude do homem com relação à sua saúde, como a prevenção de doenças e a redução de danos. Para o pesquisador Will Courtenay, enquanto geralmente as mulheres estão mais engajadas em hábitos auto-preservativos, os homens estão mais associados a comportamentos de risco, tais como beber, fumar, dirigir sem prudência e se envolver em lutas. Isso porque as concepções vigentes de gênero em nossa sociedade ainda vangloriam o risco e o perigo como instrumentos que atestam a virilidade do indivíduo, preconizando que o mundo dos homens é terra “onde os fracos não têm vez”. Por um lado, é possível que por se sentirem tão fortes e inabaláveis os homens quase nunca cedam a uma visita ao médico. Mas, por outro, a resistência masculina aos exames preventivos pode advir, na verdade, do temor da descoberta de que algo em seu corpo não vai tão bem, denunciando assim um sinal de fraqueza.

Por conta dessas assimetrias entre homens e mulheres, hoje existem programas de medicina voltados para a interseção entre gênero e saúde. Nos EUA, por exemplo, os homens morrem cerca de 7 anos mais jovens que as mulheres, e apresentam maiores taxas de óbito para todas as 15 principais causas de morte, segundo dados do DHHS (Department of Health and Human Services). Certamente, a interpretação das coordenadas que regem essas estatísticas, bem como as medidas de saúde pública cabíveis em tal situação, não funcionarão se forem desprezadas as questões de cunho psicossocial envolvidas. Da mesma forma, no Brasil também é hora de se levar em conta as motivações culturais e individuais imbuídas nos cuidados com a saúde; caso contrário, não haverá ações que se preocupem apenas com a fisiologia, a anatomia e a farmacologia que sejam suficientes para o combate das “doenças masculinas” e para a cura do câncer de tabu.

Para maiores informações:

O site do INCA traz informações seguras a respeito da epidemiologia, dos fatores de risco, sintomas, diagnóstico, prevenção e tratamento do câncer de próstata, tudo descrito de maneira clara e simples.

O artigo “Sexualidade masculina e saúde do homem: proposta para uma discussão”, de Romeu Gomes, foi publicado pela revista Ciência & Saúde Coletiva (8: 825-829), em 2003.

O artigo "Constructions of masculinity and their influence on men’s well-being: a theory of gender and health”, de Will H. Courtenay, foi publicado pela revista Social Science & Medicine (50: 1385-1401), em 2000.

A próstata é uma glândula que só o homem possui e está situada abaixo da bexiga.

imagem: site do INCA

 

Volta

 

O Cancer de Tabu
Marte, o planeta vermelho, do mesmo tamanho
Plutão - planeta equatorialmente prejudicado
Água: como cuidamos do petróleo do futuro aqui no Patropi?
AIDS e Sexualidade
CINECIEN 06
Avanços e entraves das terapias com células tronco
O cometa do século que os cariocas não verão
Ciência divertida
Eclipse da Lua
Novas Tecnologias da Genética Humana
A ficção científica como narrativa do mundo contemporâneo
Moringa oleifera: que planta é essa, que tudo dá?
Tirando suas dúvidas!
Eclipse parcial do Sol de 11 de setembro de 2007
Einstein e a América Latina