![]() |
![]() |
|
|
| ciência em debate (artigos) Avanços e entraves das terapias com células tronco Rosália Mendez-Otero* O tema células tronco se tornou, nos últimos anos, muito freqüente na mídia e tem sido motivo de debates acalorados no meio acadêmico e entre o público em geral. Isto se deve à promessa que tem sido divulgada de que estas células poderiam ser utilizadas para tratar doenças que são consideradas incuráveis ou doenças crônicas e degenerativas, para as quais no momento não temos como tratar com os métodos convencionais disponíveis. O que é - As características particulares destas células e que as tornam candidatas para estas possíveis terapias celulares são: Elas são auto-renováveis, isto quer dizer que elas se multiplicam mantendo as características originais, o que nos permite gerar, a partir de um pequeno número de células, todas as células que seriam necessárias para um ou múltiplos tratamentos. Uma outra característica importante é o fato de que, sob determinadas condições, elas podem se diferenciar e dar origem a todos os tipos celulares que compõe o organismo (elas são pluripotentes). Resumindo, a partir de um pequeno número de células tronco poderíamos gerar qualquer outra célula que fosse necessária para tratar qualquer tecido doente em quantidades teoricamente ilimitadas. É possível que isto um dia se torne realidade mas, no momento várias dessas possibilidades ainda se encontram no plano teórico e muita investigação tem ainda que ser feita para se concluir se isto é ou não um fato e mais estudos são necessários ainda para que se possam transformar estes conhecimentos em tratamentos clínicos. O processo - Mas, as pesquisas com células tronco esbarram em uma série de questões éticas, legais e que, em conseqüência, resultam em problemas de financiamento destes estudos. As questões éticas e legais têm sido levantadas em relação aos estudos envolvendo as chamadas células tronco embrionárias. Estas células estão presentes nos estágios mais iniciais do desenvolvimento do embrião (estágio de blastocisto, 8 a 10 dias após a fecundação, antes da implantação no útero). Para obter estas células, os cientistas têm utilizado embriões descartados (por serem mal formados, ou sobressalentes), em processos de fertilização in vitro. A partir de alguns destes embriões se obtém linhagem de células embrionárias e, uma vez estabelecida a linhagem, pode ser multiplicada como foi dito acima, não havendo mais necessidade de utilizar outros embriões. Estas linhagens podem ser mantidas proliferando e indiferenciadas (gerando novas células embrionárias) ou uma parte destas células pode ser tratada com fatores que as diferenciem em, por exemplo, cardiomiócitos (células do coração), neurônios (células do cérebro) ou hepatócitos (células do fígado).
O problema - Tudo isto já foi feito em diversos laboratórios de pesquisa nos países cuja legislação permitem pesquisas com estas células. Se isto já e feito nos laboratórios, surge a pergunta de porque não estão sendo feitos estudos clínicos utilizando estas células para tratar pacientes? No momento, há ainda uma série de fatores relativos à segurança destas células que impedem que se iniciem os estudos em pacientes. Por exemplo, para cultivar estas células , expandi-las e diferenciá-las são usados meios de cultura e reagentes de origem animal. Considera-se que o contato destas células com estes produtos podem fazer com que elas carreguem para o indivíduo produtos de origem animal e causar efeitos colaterais. É necessário então desenvolver protocolos de cultura que substituam estes produtos por reagentes seguros para os pacientes que vierem a receber estas células. Um outro problema que ainda não foi resolvido é que a capacidade de auto-regeneração e a pluripotencialidade destas células fazem com que elas possam vir a formar tumores ao serem introduzidas no organismo do paciente. Enquanto estes problemas não forem resolvidos e testados em modelos animais de doenças humanas, não é possível iniciar os protocolos de pesquisa clínica com estas células. Quanto mais laboratórios e quanto mais países estiverem fazendo estas pesquisas, maiores são as chances de que estas questões sejam resolvidas e se possa partir então para a pesquisa em pacientes. A alternativa - Uma alternativa ao uso de células tronco embrionárias tem sido a utilização das células tronco adultas. Estas apresentam características diferentes das embrionárias e são obtidas a partir de tecidos adultos como a medula óssea, o sangue de cordão umbilical e até mesmo do tecido adiposo. Estas células são raras, se dividem muito pouco e possivelmente não se diferenciam em células de outros tecidos. O fato de que se dividem pouco e de que podem ser obtidas do próprio indivíduo, as tornam seguras para utilização em clínica, além de que o seu uso não envolve o tipo de questões éticas e legais que tem sido levantado para as células embrionárias. Por outro lado, não é possível obter um grande numero de células a partir de uma linhagem. É por causa destas características das células tronco adultas que elas têm sido utilizadas nos estudos clínicos que envolvem o uso de células tronco. Os avanços - O Brasil tem sido pioneiro nestes estudos e, no momento, vários estão em andamento. No caso das doenças cardíacas, a partir de um estudo inicial para avaliar a segurança (estudo fase I) destas células em pacientes com cardiopatias, o Ministério da Saúde está coordenando através do Hospital Nacional de Cardiologia de Laranjeiras, RJ, um estudo multicentrico (envolvendo diversos hospitais no Brasil) para avaliar a eficácia (fase II/III) destas células em quarto tipos de cardiopatias. Após a conclusão e análise dos resultados deste estudo, será possível dizer se estas células poderão ou não ser utilizadas como tratamento em pacientes cardiopatas. Os demais estudos em andamento no Brasil com o uso de células tronco adultas estão todos na fase I, como é o caso do estudo em pacientes com acidente vascular cerebral (AVC ou derrame) isquêmico na fase aguda, que está sendo coordenado pela UFRJ e desenvolvido em 5 hospitais no país. Estudos semelhantes (fase I) também estão sendo realizados em pacientes com doenças hepáticas na UFRJ e na Bahia. Todos estes estudos utilizam as células tronco obtidas da medula óssea do próprio paciente. É importante enfatizar que para que se possa concluir se estas células têm ou não um possível papel terapêutico temos que aguardar a realização de estudos fase II/III que são desenhados para testar a eficácia desta terapia. Este campo das Terapias Celulares é sem duvida
um campo novo, com muitas promessas mas ainda com muitas questões
a serem resolvidas. Só o envolvimento de pesquisadores da área
básica e clínica e o aporte de recursos permitirá
o avanço neste campo e a aplicação no menor prazo
possível das terapias que se mostrarem eficazes nos milhões
de pacientes com doenças crônico-degenerativas ou lesões
traumáticas e, para os quais, a medicina atual não tem
muito a oferecer no sentido de melhorar sua doença e/ou sua qualidade
de vida. * Professora titular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho-UFRJ Imagens: |
|