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Einstein: Artista da Inovação

Seria o cúmulo da obviedade começar uma matéria sobre Einstein dizendo que ele nasceu em Ulm, no sul da Alemanha. Uma reportagem de biografia “padrão” começaria assim. Porém, em virtude dos noventa anos da comprovação da teoria da relatividade geral, na cidade de Sobral, no Ceará, poderíamos deformar a linha do tempo desta matéria, já que encontramos uma boa ocasião.

Albert Einstein, o então promissor físico que havia bolado uma teoria excêntrica para descrever a movimentação dos corpos, estava com sua credibilidade posta em cheque, no ano de 1919. Sua teoria da relatividade geral não havia sido provada num trabalho de campo feito na União Soviética, mais precisamente no vale do rio Don. Isso significava, à época, que provavelmente suas utópicas teorias não passavam de ficção, já que, além de beirarem o inimaginável, não tinha embasamento empírico algum. Logo, a expedição científica mobilizada 91 anos atrás com o objetivo de comprovar a relatividade foi esquematizada na Alemanha, e assim puderam se dividir em busca de novas descobertas ao redor do mundo.

Sobral, no sertão cearense, estava na rota dos pesquisadores imbuídos de provar o modelo da relatividade geral. Segundo Einstein, um eclipse lunar seria capaz de mostrar que o sol poderia curvar um raio de luz em função de ter grande força gravitacional. Outra expedição foi marcada para a ilha do Príncipe, à época colônia portuguesa. Porém, por condições climáticas desfavoráveis, houve poucos avanços na África. Andrew Crommelin, o cientista inglês que fez a expedição ao Brasil, apresentou ao mundo as evidências que permitiram mostrar a verdadeira profundidade que o intelecto de Einstein alcançava.Só a partir daí a figura de Einstein ganhou uma nova dimensão. Com a Física newtoniana vendo seu aporte teórico sendo completamente transformada por um novo cientista, não seria difícil imaginar que a figura deste gênio ganharia destaque na imprensa internacional. Ainda mais quando sua militância política e suas convicções foram expostas para o grande público. A manchete do The London Times de 7 de novembro de 1919, não deixa dúvidas:

 

 

Einstein era antes de tudo cidadão do mundo. Nasceu na Alemanha, viveu por certos períodos na Itália, Suíça, Reino Unido e definitivamente nos EUA. Sem contar as inúmeras viagens que fez ao redor do mundo na fase em que se tornou o maior popstar da ciência (quiçá da humanidade naquele momento). Era socialista de coração. Algo que muitos poderiam interpretar de forma negativa.  Além disso, Einstein, seguindo a corrente de pensamento judeu vigente à época, era sionista. Mas ao contrário do que foi proposto pelo movimento sionista, Einstein era a favor de um estado confederado que reunisse judeus e palestinos. À semelhança da Suíça, país onde viveu por muitos anos.

A influência que Einstein tinha sobre o mundo científico e também sobre os rumos políticos de sua era, fez deste um dos homens mais influentes do mundo. E quando influenciou com suas teorias na criação do projeto Manhattan, que uniu os principais físicos e químicos para a construção da bomba A, se arrependeu profundamente. Suas palavras sobre este incidente foram as seguintes:

“Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma carta ao Presidente Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de experiências de grande envergadura para o estudo e a realização da bomba atômica. E o disse. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sábios alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances de resolvê-lo. Assumi portanto minhas responsabilidades. E no entanto sou apaixonadamente um pacifista e minha maneira de ver não é diferente diante da mortandade em tempo de paz. Já que as nações não se resolvem a suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacífica e não baseiam seu direito sobre a lei, elas se vêem inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. Participando da corrida geral dos armamentos e não querendo perder, concebem e executam os planos mais detestáveis. Precipitam-se para a guerra. Mas hoje, a guerra se chama o aniquilamento da humanidade. Protestar hoje contra os armamentos não quer dizer nada e não muda nada. Só a supressão definitiva do risco universal da guerra dá sentido e oportunidade à sobrevivência do mundo. Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra a raiz do mal e não contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigência. Que importa que seja acusado de anti-social ou de utópico? Gandhi encarna o maior gênio político de nossa civilização. Definiu o sentido concreto de uma política e soube encontrar em cada homem um inesgotável heroísmo quando descobre um objetivo e um valor para sua ação. A Índia, hoje livre, prova a justeza de seu testemunho. Ora, o poder material, em aparência invencível, do Império Britânico foi submergido por uma vontade inspirada por idéias simples e claras.”

 

Além da profunda militância política do seu pensamento, Einstein tinha como grande ídolo o filósofo Baruch Spinoza. O que lhe conferia também grande autonomia ao dissertar sobre filosofia. Deste, absorveu o germe do panteísmo. Junto com sua Ontologia notadamente deísta, seu pensamento foi, durante a vida, fundamentada na crença da perfeita racionalização do Universo. O que abriu precedentes para seus devaneios religiosos também. Em uma de suas metáforas mais lindas, quando indagado sobre o que era a luz, Einstein respondeu com a serenidade que lhe era característica: a luz é a sombra de deus.

   Desta maneira, percorrendo todos os campos do pensamento do grande gênio do século XX, afim de unificá-lo sem o compromisso da doutrinação, descrevemos uma trajetória não muito usual. O foco não foi o cientista Albert Einstein por um simples motivo: Einstein era celebridade. Ele saiu das fronteiras da ciência para influenciar de maneira ainda mais contundente cérebros e corações. De modo que até suas crenças pessoais, da ordem do inexplicável, viraram motivo e objeto de estudo.

   E paira uma pergunta no ar. Se Andrew Crommelin não tivesse aceitado o desafio de desbravar o sertão brasileiro, rumo a Sobral, em busca das evidências para a então novíssima teoria da relatividade geral, será que a série de eventos que sucederam a descoberta teria sido tão a favor de Albert Einstein? Se Einstein tivesse mais alguns anos de amarga infâmia, teríamos o respeito que temos por sua figura hoje? Saberíamos da profundidade e da infinidade de questionamentos que ele se indagava durante horas?  Seria Einstein o grande Herói da Física sem o evento pontual?

   Nada podemos afirmar. O que podemos inferir é que foi uma ajuda muito bem vinda e que potencializou na imprensa mundial todo o novo Universo que estava aprisionado numa mente brilhante. Por isso, as observações em Sobral foram um acontecimento. Quebrou uma série e inaugurou uma nova ciência sob a égide de alguém não menos brilhante que Darwin ou Newton.

 

Vinícius Albuquerque Machado – Laboratório de Jornalismo científico

 

 

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