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HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO
A História da alimentação recorre
às diversas disciplinas para desvendar as bases alimentares,
sua dinâmica e transformações através dos
tempos.
Durante os séculos XV e XVI, período Renascentista, com
a intensificação, na Europa, da produção
artística e científica, são publicados no Ocidente,
os primeiros estudos clássicos dos gregos e latinos sobre as
plantas voltadas para medicina, como Matéria Médica de
Dioscórides, História Natural de Plínio e História
das Plantas, de Teofrasto. Os Herbários descreviam as plantas
tanto de forma alimentícias quanto medicinal. Dois clássicos
- Historia Stirpium, de Leonhardt Fuchs, 1542 e Frugum Historia, Rembert
Dodoens, 1552 - descreviam plantas e frutos a partir de supostas vantagens
para o corpo humano, relacionando-os ao humor, à estação
do ano ou a um momento do dia ou noite.
No século XVIII, os alimentos ainda eram tratados sob a ótica
da medicina terapêutica, cercada de crenças nas suas supostas
virtudes, especialmente com relação ao sexo. Em 1755,
o químico e médico francês Louis Lemery, dizia que
“Ostras, chocolate e cebolas excitariam os ardores de Vênus,
devendo ser evitadas, especialmente pelas mulheres castas”. Entretanto,
no mesmo período, o cientista italiano Lázaro Spallanzani
(1729-1799) evidenciava a natureza química da digestão,
demonstrando a acidez do suco gástrico, cuja composição
de ácido clorídrico foi constatada em 1824 pelo médico
inglês William Prout (1785-1850).
O desenvolvimento das indústrias alimentares, no século
XIX, com a Revolução Industrial, modificou definitivamente
não só os comportamentos sociais, como os hábitos
alimentares das pessoas. O que era fabricado artesanalmente, como farinhas,
óleo, açúcar, passam a ser produtos de grandes
usinas. As mulheres passaram a fazer parte da força de trabalho,
mudando a vida doméstica. O consumo de eletrodomésticos
aumentou, assim como a comida industrializada. Trabalhadores passam
a comer nos restaurantes das fábricas. Surgem restaurantes de
rua, que absorvem a população que prefere não fazer
suas refeições em casa. As forças de produção
no campo e as relações mercantilistas se intensificam,
dando um novo patamar para a Economia. A História Econômica
da Alimentação vai do farnel do viajante, semeadura, colheita,
moagem, estocagem, transporte, venda; passa pelo preparo dos grãos,
frutas e hortas e quintais, e chega nos mercados e commodities, armazéns,
vendas, bares e restaurantes.. “As economias da casa, do país
e do globo precisam ser vistas sempre do ângulo da despensa”.
As melhorias nutricionais levam ao crescimento populacional, mas, por
outro lado, acontecem várias alterações na demografia
mundial em detrimento da fome, em conseqüência de guerras
ou quebra de safras, como ocorrido na Irlanda, com a crise da safra
da batata, entre 1845 e 1847, matando meio milhão de pessoas
e provocando grande fluxo emigratório. Na área das Ciências
Sociais, a pesquisa sobre nutrição passa a estar envolta
pelos binômios produção-consumo e cidade-campo.
No século XX, estudos de nutrição animal e vegetal
avançaram nas áreas do conhecimento bioquímico
e fisiológico. A partir destes conhecimentos, a composição
do corpo humano foi elucidada, contendo 93% de três elementos
– oxigênio, carbono e hidrogênio e 6,1% de nitrogênio,
cálcio e fósforo. Observou-se que a composição
dos alimentos é semelhante ao do corpo humano. Através
dessas descobertas, pode-se estimar quais as substâncias vitais
para a alimentação humana: água, sal, carboidratos
(glicídios), compostos nitrogenados que contém aminoácidos
(proteínas), ácidos graxos (lipídios), fibras,
sais minerais e vitaminas, para suprir as necessidades diárias
de um ser humano, oferecendo fontes plásticas, energéticas
e reguladoras. Nossa necessidade de calorias (unidade de calor que é
necessária para variar um grau à temperatura de um grama
de água destilada) é uma média de 2.500 diárias,
média para um adulto, com aproximadamente 70 Kg, que realiza
um trabalho moderado.
O século XX foi também marcado por duas grandes guerras
e a divisão dos países por blocos econômicos. A
fome atingiu diversas sociedades e, como problema alimentar mundial,
foi oficializado em 1943 com a criação da FAO (Food and
Agriculture Organization - Organização de Alimentação
e Agricultura das Nações Unidas), numa conferência
em Hot Springs, Estados Unidos. Ao mesmo tempo, alguns problemas de
saúde passaram a ser relacionados com falta ou excesso de alguns
nutrientes como a falta de ferro que provoca anemia; de frutas frescas
levando ao escorbuto pela falta de vitamina C ou do iodo que provoca
o bócio. Já o excesso de gorduras leva a um aumento dos
níveis do colesterol e o alto consumo de sal pode causar hipertensão
arterial. O desenvolvimento com qualidade de vida da criança
e do adolescente são prioridades no mundo todo. O aleitamento
prolongado no seio materno e a inclusão de outros tipos de alimentos
na dieta da criança têm sido apontados como uma das melhores
soluções para evitar o óbito de crianças
nos primeiros anos de vida.
A American Dietetic Association elaborou, em 1916, os primeiros guias
nutricionais para classificação em grupos de alimentos,
que passam a fazer parte das políticas de saúde pública
em todo o mundo. Esses guias servem para orientar os consumidores na
escolha de uma dieta balanceada. Naquela época, cinco tipos de
nutrientes eram considerados básicos para uma boa alimentação
Carboidratos, lipídeos, proteínas, minerais e ácidos
orgânicos.
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Até 1992, foram descritos seis guias, incluindo a Pirâmide dos Alimentos, criada pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos (U.S. Department of Agriculture - USDA). |
No Brasil, Getúlio Vargas instituía o
salário mínimo, em 1º de maio de 1940, usando como
base de cálculo, o que se convencionou chamar de cesta básica
e implementava nas escolas públicas, a merenda escolar. Neste
mesmo período, surgem os primeiros cursos de formação
de nutricionistas e o principal periódico sobre o tema, os Arquivos
Brasileiros de Nutrição, criado em 1944 pelo nutrólogo
e Conselheiro da FAO entre 52 e 56, Josué de Castro (1908 - 1973).
Os Arquivos são considerados a principal fonte documental da
história da nutrição do Brasil. Os artigos debatiam
situações atualizadas e, nas últimas publicações,
entre 1964 a 68, os temas giravam em torno do desenvolvimento econômico,
alimentação e tecnologia e o combate à fome. O
objetivo maior do periódico era a divulgação da
Ciência da Nutrição, dando maior visibilidade aos
resultados dos trabalhos e estudos realizados no Brasil. Após
o golpe militar de 1964, com o exílio do fundador do Arquivos,
Josué de Castro e os problemas com a censura, o periódico
deixa de ser editado em 1968. Autor do clássico de 1946, Geografia
da Fome, Josué de Castro, dizia ser uma “conspiração
do silêncio”, o fato “realmente estranho,
chocante de que, num mundo como nosso, caracterizado por tão
excessiva capacidade de escrever-se e publicar-se, haja até hoje
tão pouca coisa escrita acerca do fenômeno da fome”
(Castro, 1946).
A fome assola a humanidade até hoje e, paralelamente, percebe-se
que a obesidade está se tornando um novo e grave problema de
saúde pública. A mudança dos padrões alimentares
para o modelo americano, com aumento de consumo de carboidratos, açúcares
e gorduras, já tinha na Coca-cola o símbolo de uma nova
cultura capitalista contemporânea, e encontra na cadeia mais famosa
de fast food do mundo - Mc Donald’s, inaugurada em 1937 - a consolidação
desta nova geração. O rompimento de todas as barreiras
políticas e geográficas acontece na década de 80,
quando são inauguradas as lojas do Mc Donald´s em Moscou
e Pequim. A padronização dos gostos alimentares e a industrialização
do entretenimento e do lazer fizeram crescer, por outro lado, as academias
de ginásticas e as dietas para emagrecer, passando a imagem física
a ser o sustentáculo principal do indivíduo. O século
XX é marcado pela uniformização global da alimentação,
suprimindo identidades regionais, com produtos industrializados substituindo
a comida caseira. O hábito de comer fora e entre as refeições,
o beliscar, passa a ser regular.
Às portas do século XXI, o aumento da pesquisa em nutrição
e tecnologia de alimentos aliada à necessidade de informação
específica, vem indicando a educação como um dos
instrumentos para que possamos solucionar os problemas de saúde
provocados por uma alimentação não adequada.